A Culpa É Do Vírus

Atualizado: Mar 29

Quando esse desastre terminar, tenho certeza de que a teoria econômica dominante, assim como as autoridades responsáveis, alegarão que tudo não passou de uma crise exógena, a qual nada deveu às falhas inerentes ao modo de produção capitalista e à estrutura social da sociedade.


Por Michael Roberts.


Foi o vírus que produziu todo o problema. Pois, foi esse o argumento do “mainstream” após a Grande Recessão de 2008-9. E ele será, sem dúvidas, repetido em 2020.


Enquanto escrevo, a pandemia de coronavírus (como agora é definida oficialmente) ainda não atingiu um pico. Havendo aparentemente começado na China (embora exista alguma evidência de que possa ter começado em outros lugares também), agora se espalhou pelo mundo. Nesse momento, o número de infecções é maior fora da China do que dentro. Os casos da China pararam; em outros lugares ainda há um aumento exponencial.



Essa crise sanitária criou pânico nos mercados financeiros. Os mercados de ações caíram 30% no espaço de semanas. Acabou o mundo de fantasia (capital fictício) dos ativos financeiros crescentes porque estavam sendo financiados por custos cada vez menores de empréstimos.


O COVID-19 parece ser um “desconhecido, bem desconhecido”. Afigura-se como uma causa do tipo “cisne negro”, semelhante àquela que produziu um colapso financeiro global e que desencadeou a Grande Recessão há mais de dez anos. Mas o COVID-19, assim como o colapso financeiro, não é realmente um meteorito que caiu do céu – um "choque" exógeno em uma economia capitalista que, de outra forma, tenderia a crescer harmoniosamente. Mesmo antes da pandemia, na maioria das grandes economias capitalistas, seja no chamado mundo desenvolvido seja nas economias "em desenvolvimento" do "Sul Global", a atividade econômica estava desacelerando. Em algumas economias, os indicadores já mostravam que a produção nacional e o investimento estavam se contraindo.



COVID-19, de fato, marca um ponto de inflexão. Ora, o que está acontecendo, afinal? Uma analogia é imaginar um monte de areia que acaba de chegar a um pico; nesse momento, os grãos de areia que pingam constantemente começam a escorregar pouco a pouco; chega, então, um ponto em que a adição de uma partícula de areia faz como que pilha sofra uma avalanche. Um pós-keynesiano prefere chamar esse processo de “momento de Minsky”. Seguem Hyman Minsky, autor que argumentou que o capitalismo parece ser estável até se mostrar instável. Para ele, a estabilidade gera instabilidade. Um marxista diria que sim, que existe instabilidade, mas acrescentaria que essa instabilidade se transforma em uma avalanche periodicamente por causa das contradições subjacentes no modo de produção capitalista. (N.T. A quantidade de areia, na analogia, entra em contradição com a capacidade de acumular do suporte num certo momento).

Na verdade, o Covid-19 não é um “desconhecido, bem desconhecido”. No começo de 2018, durante um congresso da Organização Mundial da Saúde, em Genebra, um grupo de experts (o R&D Blueprint) cunhou o termo “Doença X”: ele previu que a próxima pandemia mundial seria causada por um microrganismo ainda desconhecido, um novo agente patogênico que a população mundial ainda não havia experimentado.


A doença X se originaria provavelmente de um vírus do mundo animal e emergiria em algum lugar do planeta em que o desenvolvimento econômico tivesse posto em contato pessoas com a vida selvagem.


Ora, este é um simples exemplo de algo mais geral: o capitalismo, em seu ocaso, está criando problemas que crescentemente não pode resolver. A verdadeira loucura é querer prolongá-lo (observação do tradutor).

A doença X – disseram eles – provavelmente seria confundida com outras doenças no início do surto. Ela se espalharia rápida e silenciosamente, explorando as redes de viagens e de comércio, alcançando assim vários países sem que uma contenção eficiente ocorresse. A doença X teria uma taxa de mortalidade mais alta do que uma gripe sazonal, mas se espalharia tão facilmente quanto a gripe. Isso abalaria os mercados financeiros antes mesmo de alcançar um estatuto de pandemia. Em poucas palavras, Covid-19 é a doença X.


Como argumentou o biólogo socialista Rob Wallace, as pragas não são apenas parte de nossa cultura; eles são causadas por ela. A Peste Negra se espalhou pela Europa em meados do século 14 com o crescimento do comércio ao longo da Rota da Seda. Novas cepas de influenza surgiram da pecuária. Ebola, SARS, MERS e agora Covid-19 estão ligados à vida selvagem. As pandemias geralmente começam como um vírus que vive em animais e que saltam para as pessoas quando estas entram em contato com eles. Essas repercussões estão aumentando exponencialmente à medida que nossa pegada ecológica nos aproxima da vida selvagem em áreas remotas. O próprio comércio cuida de trazer os “produtos” da vida selvagem para os centros urbanos. A construção sem precedentes de estradas, desmatamento, limpeza de terras e desenvolvimento agrícola, bem como viagens e comércio globalizados, torna a vida humana extremamente suscetível a patógenos como vírus corona.


Há uma discussão bem tola entre os economistas “mainstream” sobre o impacto econômico do COVID-19: trata-se de um "choque de oferta" ou de um "choque de demanda"? – eis a questão. A escola neoclássica diz que é um choque de oferta porque interrompe a produção; já os keynesianos querem argumentar que se trata realmente de um choque de demanda porque as pessoas e as empresas param de gastar em viagens, serviços etc.

Ora, primeiro é preciso ver, tal como se argumentou acima, que não se trata realmente de um “choque. Trata-se, isto sim, de um resultado inevitável da busca do capital por lucro na agricultura e na exploração da natureza, assim como algo que resulta devido ao estado já fraco da produção capitalista em 2020.


Em segundo lugar, é evidente que o processo começa na oferta e não na demanda, tal como os keynesianos querem reivindicar. Como disse Marx numa passagem conhecida: "Toda criança sabe que se uma nação deixa de trabalhar por um ano, ou mesmo por algumas semanas, ela pereceria". (Karl Marx, Carta à Kugelmann, Londres, 11 de julho de 1868). É a produção, o comércio e o investimento que são interrompidos primeiro quando lojas, escolas e empresas são fechada temporariamente para conter a pandemia. Obviamente, se as pessoas não puderem trabalhar e se as empresas não puderem vender, a renda cairá e os gastos entrarão em colapso. Ora, isso produzirá, em sequência, um "choque de demanda". De fato, é assim que acontece em todas as crises capitalistas: elas começam com uma contração da oferta e acabam gerando uma queda no consumo – e não vice-versa.


Eis aqui, de modo bem detalhado (em inglês), como um economista do “mainstream” pensa a anatomia das crises:


Alguns otimistas do mundo financeiro argumentam que o efeito do COVID-19 nas bolsas de valores terminará tal como terminou um outro choque, em 19 de outubro de 1987. Na segunda-feira negra, o mercado de ações despencou muito rapidamente, mais do que agora, mas em poucos meses ele voltou a subir de novo. O atual Secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, tem certeza de que o pânico financeiro terminará logo. “Sabe, eu penso nas pessoas que compraram ações após o crash de 1987, ou seja, aquelas que as adquiriram após a crise financeira" – disse ele para preveni-los a não cometer o mesmo erro. “Para investidores de longo prazo, esta queda abrupta será uma grande oportunidade de investimento. Presenciamos uma situação de curto prazo. Pode demorar alguns meses, mas vamos superar isso e a economia ficará mais forte do que nunca” – foi o que disse o Secretário do Tesouro.

Os comentários de Mnuchin foram repetidos pelo assessor econômico da Casa Branca, Larry Kudlow. Ele pediu aos investidores que capitalizassem o mercado de ações que agora vacila em meio aos temores da pandemia de coronavírus: “os investidores de longo prazo devem pensar seriamente em comprar as ações que agora estão com os preços em queda”. Segundo ele, o estado da economia dos EUA é muito “sólido”. Na verdade, Kudlow realmente repetiu o que disse apenas duas semanas antes do colapso financeiro global de setembro de 2008: “para aqueles que preferem olhar para o futuro, através do vidro da frente, as perspectivas no mercado acionário estão ficando cada vez melhores.”

A queda de 1987 foi atribuída ao crescimento das hostilidades no Golfo Pérsico, o que levou a um aumento nos preços do petróleo; mas também, ao medo de taxas de juros crescentes. Um mercado em alta por cinco anos, sem uma correção significativa, beneficiava-se então da introdução das negociações computadorizadas. Como a economia era fundamentalmente “saudável”, a crise não durou. O que aconteceu de fato? Ora, a lucratividade do capital nas principais economias estava aumentando e ela apenas atingiu um pico no final dos anos 90 (embora houvesse uma queda em 1991).


Assim, o que ocorreu em 1987 foi o que Marx chamou de uma pura "crise financeira", algo que ocorre devido à instabilidade inerente aos mercados de capitais especulativos.

Qual será a magnitude do desastre social que está por vir? Há um excelente artigo de Pierre-Olivier Gourinchas que modela o provável impacto. Ele apresenta um diagrama dos possíveis impactos do surto pandêmico. Sem nenhuma ação, a pandemia assume a forma da curva vermelha no gráfico abaixo, levando a muitos casos e mortes. Com ações de bloqueios e de isolamento social, a forma dessa curva pode se aproximar daquela de cor azul: o pico é assim atrasado e moderado, fazendo com que a pandemia se espalhe por mais tempo. Isso supostamente reduz o ritmo da infecção e o número de mortes.

As políticas de saúde pública devem ter por objetivo "achatar a curva", impondo medidas drásticas de distanciamento social e promovendo práticas de saúde para reduzir a taxa de transmissão. Atualmente, a Itália segue a abordagem chinesa de bloqueio total; ora, ela está fechando as porteiras depois que o vírus entrou. O Reino Unido está tentando uma abordagem muito arriscada de isolamento em casa apenas para os mais vulneráveis. Permite, assim, que os jovens e os mais saudáveis sejam infectados a fim de criar a chamada “imunidade de rebanho”.

Ora, isto evita em princípio que o sistema de saúde fique sobrecarregado. O que essa abordagem pretende é basicamente eliminar os antigos e os vulneráveis porque eles vão morrer de qualquer maneira. Julga-se que um bloqueio total irá danificar o sistema econômico e, assim, os lucros. A abordagem dos EUA é basicamente não fazer nada: nenhum teste em massa, nenhum isolamento em casa, nenhum fechamento de eventos públicos. A ordem é esperar até que as pessoas fiquem doentes para depois tratar os casos graves.

Pode-se chamar a essa última abordagem de resposta malthusiana. O conhecido reverendo Thomas Malthus foi o mais reacionário dos economistas clássicos; ele escreveu peças “notáveis” no início do século XIX. Nelas, ele argumentou que havia muitas pessoas pobres “improdutivas” no mundo e que as pragas e as doenças regulares eram necessárias e inevitáveis. Assim, elas tornavam as economias mais produtivas.


O jornalista conservador britânico Jeremy Warner apresentou esse argumento para a atual pandemia de Covid-19: “ela mata” – disse ele – “principalmente os idosos". “De uma perspectiva econômica totalmente desinteressada” – complementou –, o COVID-19 pode até se mostrar levemente benéfico a longo prazo ao abater desproporcionalmente os idosos dependentes”. Ora, foi assim que respondeu às críticas recebidas: “obviamente, para os afetados, é uma tragédia humana, qualquer que seja a sua idade, mas esse é um artigo sobre economia, o qual não tem a obrigação de tratar da miséria humana.” De fato, foi por causa de teses como essa que Marx chamou a teoria econômica burguesa, em meados do século XIX, de “filosofia da miséria”.

A razão pela qual os governos dos EUA e da Grã-Bretanha ainda não impuseram medidas draconianas, tal como ocorreu na China, e eventualmente agora na Itália (tardiamente) e em outros lugares, é porque elas inevitavelmente aumentarão a severidade da recessão macroeconômica. Considere a China ou a Itália: o aumento das distâncias sociais exigiu o fechamento de escolas, universidades, a maioria dos negócios não essenciais e a solicitação da maior parte da população em idade ativa para que fique em casa. Embora algumas pessoas possam trabalhar em casa, isso não passa de uma pequena fração da força de trabalho como um todo. Mesmo que trabalhar em casa seja uma opção, a interrupção de curto prazo nas rotinas de trabalho provavelmente afetará a produtividade. Em suma, a melhor política de saúde pública mergulha a economia numa parada repentina; por meio de faltas de peças nas cadeias de suprimentos.

O dano econômico pode ser considerável. Gourinchas tentou modelar o impacto. Ele assumiu que, em relação a uma linha de base, as medidas de contenção reduzam a atividade econômica em 50% por um mês e 25% no mês seguinte, após o que a economia retorna à linha de base. “Esse cenário ainda assim daria um forte golpe nos principais números do PIB, com um declínio na produção anual da ordem de 6,5% em relação ao ano anterior. Mas pode ser pior: a paralisação de 25% por apenas mais um mês e o declínio no crescimento anual da produção (em relação ao ano anterior) atingiria quase 10%!” Como ponto de comparação, o declínio no crescimento da produção nos EUA durante a crise de 2008-09 foi de cerca de 4,5%. Gourinchas conclui que “estamos prestes a testemunhar uma desaceleração que pode ultrapassar a da Grande Recessão”.

No auge dessa última crise, a economia dos EUA estava criando desemprego a uma taxa de 800.000 trabalhadores por mês, mas a grande maioria das pessoas ainda estava empregada e trabalhando. A taxa de desemprego atingiu um pico de "apenas" 10% no pior momento. Por outro lado, o coronavírus está criando uma situação em que – durante um curto período – 50% ou mais das pessoas talvez não consigam continuar trabalhando. O impacto na atividade econômica será comparativamente muito maior.

O sistema econômico, tal como ocorre com o sistema de saúde, enfrenta um problema de como “achatar a curva". A curva vermelha representa a produção perdida durante uma forte e acentuada desaceleração, amplificada pelas decisões econômicas de milhões de agentes econômicos que tentam se proteger cortando gastos, impedindo investimentos, diminuindo o crédito.


O que fazer para achatar a curva? Bem, os bancos centrais podem e estão fornecendo liquidez de emergência ao setor financeiro. Os governos podem implantar medidas fiscais discricionárias ou programas mais amplos para apoiar a atividade econômica. Essas medidas podem ajudar a "achatar a curva econômica", ou seja, limitar a perda econômica. Nesse caso, a economia pode seguir a curva azul, mantendo assim os trabalhadores remunerados e os empregos para que possam pagar as suas contas ou ter suas contas atrasadas por um período curto. Pequenas empresas poderiam ser financiadas para enfrentar a tempestade e os bancos poderiam ser socorridos, tal como ocorre na Grande Recessão.

Mas uma crise financeira ainda é um alto risco. Nos EUA, a dívida corporativa aumentou e está concentrada em títulos emitidos pelas empresas mais fracas (BBB ou menos). (E é isto o que se pode ver no gráfico abaixo).



Com a queda dos preços do petróleo, o setor de energia está sendo atingido por um duro duplo golpe. Os prêmios de risco de títulos (custo dos empréstimos) dispararam nos setores de energia e de transporte (conforme mostra o gráfico abaixo).



A flexibilização monetária certamente não será suficiente para achatar a curva. As taxas de juros dos bancos centrais já estão próximas ou iguais a zero. E as enormes injeções de crédito ou dinheiro no sistema bancário serão como “empurrar uma corda para frente”; o efeito na produção e no investimento deve ser muito pequenos. O financiamento barato não complementa a cadeia de suprimentos nem faz as pessoas quererem viajar novamente. Tampouco ajudará os ganhos corporativos se os clientes não estiverem gastando.

Em resposta às turbulências do mercado e à crescente demanda por liquidez, o banco central norte-americano (FED) aumentou fortemente o seu potencial de financiamento no valor de US$ 5,4 trilhões nas semanas que se seguem.


A principal componente da mitigação do afundamento econômico terá que vir da política fiscal. Agências internacionais como o FMI e o Banco Mundial ofereceram US $ 50 bilhões. Os governos nacionais estão agora lançando vários programas de estímulo fiscal. O governo do Reino Unido anunciou um grande gasto em seu último orçamento e o Congresso dos EUA concordou com um gasto de emergência.

Mas é suficiente achatar a curva se os dois meses de bloqueio derrubarem a maioria das economias em 10%? Nenhum dos pacotes fiscais atuais chega perto de 10% do PIB. De fato, na Grande Recessão, apenas a China forneceu esse volume de estímulo fiscal. As propostas do governo do Reino Unido representam apenas 1,5% do PIB no máximo, enquanto a Itália é de 1,4% e nos EUA é de menos de 1%.

Há uma chance de que até o final de abril, o número total global de casos possa atingir o pico e começar a declinar. É isso que os governos esperam e planejam. Se esse cenário otimista acontecer, o coronavírus não desaparecerá. Ele já se tornou um novo patógeno semelhante à gripe (sobre o qual sabemos pouco) que nos atingirá a cada ano, tal como os seus antecessores. Mas até dois meses de bloqueio produzirão enormes prejuízos econômicos. E os pacotes de estímulo monetário e fiscal planejados não evitarão uma queda profunda, mesmo que “apertem” a “curva” em certa medida. O pior está por vir.


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Michael Roberts é um economista inglês, autor do livro A Longa Depressão: Marxismo e a crise global do Capitalismo. Escreve regularmente em seu blog - thenextrecession.wordpress.com


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