A caixa preta das startups da Educação

Fundações bilionárias, como Lemann, promovem serviços por aplicativos, focados em formação empresarial de educadores. Na pandemia, cobiça por soluções fáceis, como vulgarização do EaD, são nova jogada para reduzir ensino a fonte de lucro

Por Marina Avelar

Texto publicado originalmente no site Outras Palavras


Lançando mão do conceito de “privatização por desastre”, que analisa a experiência de países que passaram por tragédias naturais, Marina Avelar, pesquisadora associada da Graduate Institute of International and Development Studies, da Suíça, debate criticamente, nesta entrevista, como a suspensão das aulas em função da pandemia pode se tornar uma ”janela de oportunidades” para uma penetração ainda maior das entidades filantrópicas de origem empresarial nas redes públicas de ensino. Protagonismo na formulação de políticas públicas e oferta de soluções tecnológicas para o ensino remoto são, na avaliação da pesquisadora, algumas das ações dessas entidades que miram o agora e o futuro.


O movimento Todos pela Educação atua rotineiramente tentando influenciar políticas públicas, auxiliando decisões governamentais. Da mesma forma, entidades empresariais específicas também mantêm contratos com várias secretarias de educação, para iniciativas diversas. Há diferença na intensidade ou qualidade dessa atuação neste momento? Como você identifica, a partir de ações mais concretas, que essas entidades têm aproveitado a pandemia como uma “janela de oportunidades”?


Não tem uma diferença radical na forma de trabalho. São organizações que vêm ampliando seu espaço, tendo incidência desde o Ministério da Educação até os municípios já faz um tempo. O que de fato aconteceu de novo foi, primeiro, uma rearticulação, um reposicionamento muito ágil. Isso realmente distingue essas organizações das outras, em parte, justamente pela forma empresarial que elas têm, por terem várias pessoas com formação em business, que têm um olhar diferente para ver tendências de mercado e conseguir posicionar marcas rapidamente, ao contrário da política pública, do governo, dos próprios professores e dos movimentos sociais, que geralmente têm uma lentidão um pouco maior, até porque têm que articular muita gente. Já essas organizações são muito independentes por terem muito dinheiro,por não terem que prestar contas a muita gente. Então, em dois meses, eles já tinham se reposicionado completamente. Isso eu acho que surpreende um pouco. Em duas, três semanas de pandemia, várias dessas organizações já estavam mandando questionários para professor, fazendo pesquisa online para coletar dados e demandas, para tentar desenvolver produtos, informações, plataformas… E organizações em que a tecnologia não era muito o centro, de repente, estavam cheias de soluções tecnológicas para oferecer.


Me dá um exemplo de entidades que não tinham o desenvolvimento de tecnologias e plataformas como parte da sua atuação mais permanente e que conseguiram desenvolver neste momento?


É importante a gente lembrar que eles trabalham muito em rede. São organizações que, quando você olha uma só, às vezes é difícil ver, mas quando você analisa o setor, as parcerias, isso aparece. Então, a própria Fundação Lemann é uma que já vinha investindo em tecnologia há um tempo. Desde 2014, 2015, eles já faziam uma competição de startups de educação e workshops de desenvolvimento de aplicativos. Mas, nos últimos anos, o que chamava muita atenção na Fundação Lemann era o trabalho pela Base [Nacional Comum Curricular – BNCC]. Trabalharam muito fortemente no Movimento pela Base durante a formulação da BNCC e, depois que ela foi aprovada, tiveram um trabalho também muito forte de implementação da Base, para acelerar a adoção nos municípios e nos estados. E aí aconteceu esse reposicionamento. Em uma entrevista recente, eles mesmos usaram essa palavra ‘reposicionamento’. De repente, a Base saiu do foco para entrar a tecnologia. Então, tecnologia não é necessariamente algo novo na instituição, mas o foco foi novo e eles reconhecem. E todo mundo começou a ter nota técnica.


Em geral, os pesquisadores críticos ao projeto e atuação das entidades empresariais da educação apontam três processos paralelos: um esforço de inserir na rede pública processos e concepções de educação que atendam diretamente ao interesse privado mais geral; uma tentativa de instituir mecanismos de gestão privada na educação pública; e, ao mesmo tempo, a criação de um nicho de mercado, com ganhos econômicos. Há propostas, soluções, iniciativas e ações, neste momento da pandemia, que expressem essas três frentes de atuação?


Eu acho muito bom você tocar nesse assunto. Para a pesquisa, os três pontos que geralmente eu penso [como foco dessas entidades] são: o conteúdo que é de fato ensinado; o método, ou seja, como você ensina; e como você faz a gestão. Junto com essa questão do método, tem uma coisa que as pessoas falam pouco, que é o como fazer a política pública. São três ‘comos’: o como da escola, o como da gestão e o como da política. A gente geralmente fica mais tempo nos dois primeiros, até porque, enquanto profissionais da área, a gente entende a relevância disso: quem está ditando os conteúdos não são mais as entidades de educadores, associações e fóruns, e sim os educadores que a gente chamava de externos, mas que não são mais externos. Tem muita disputa de projetos. Professores geralmente querem um projeto criativo, focalizado, que responda às necessidades de cada aluno, que vá trazer emancipação e pensamento crítico. E o projeto que essas fundações trazem geralmente não é esse, é uma coisa mais pragmática, de desenvolvimento econômico, de formação de habilidades para coisas que o mercado precisa.


Mas eu acho ótimo focar nessa questão do dinheiro porque eu acho que, no fim das contas, quando a gente fala com a população em geral, é essa a parte que chama mais atenção, que talvez escandalize. E isso é mesmo muito difícil de mapear. Uma das razões é que em alguns outros países os orçamentos dessas entidades são transparentes, as fundações, assim como as empresas, são obrigadas a disponibilizar seus balancetes, e você consegue ver, por exemplo, que uma fundação está ganhando muito dinheiro vendendo um modelo de gestão para a secretaria municipal. No Brasil, não tem como ver isso. Faz anos que tem tido uma corrida para os pesquisadores tentarem entender a caixa preta e financeira deste setor e a gente não consegue. Algumas fundações investem nesse lado de disseminação de informação e depois cobram pelas consultorias que oferecem, como o Cieb [Centro de Inovação para a Educação Brasileira], por exemplo. Estou dando esse exemplo porque no site deles está mais fácil de ver, está lá muito claro que eles estão oferecendo a secretarias municipais alguns serviços de assessoria e consultoria que são pagos. Tem outras entidades que investem em startups, que é uma coisa bastante característica da Fundação Lemann. Nos últimos cinco anos, meio que eles participam desse sistema de acelerador [de empresas]. Dentro do ecossistema de qualquer startup, você tem alguns passos. O primeiro, que geralmente chamam de incubação, é quando alguém precisa de ajuda para fazer aquela ideia rodar: precisa de treinamento, capital inicial etc. E aí existem organizações que são chamadas de incubadoras. Depois, quando essa ideia está começando a rodar, você tem outras organizações que são chamadas de aceleradoras. Elas pegam aquelas startups que já têm um mercadinho, já têm um público definido e estão precisando crescer e aceleram. A Fundação Lemann começou a trabalhar como aceleradora de startups educacionais, geralmente de aplicativos, mas também de outros tipos de produtos, que já estavam conseguindo captar algumas escolas, já estavam conseguindo vender. É como se ela comprasse ações naquela startup, fizesse crescer e, na hora em que ela começa a dar dinheiro, um pedaço é seu. É como qualquer aceleradora opera, mas o que é engraçado é que uma fundação opere como uma aceleradora. Um dos exemplos é a Geekie, que quando começou era um aplicativo pequeno e hoje em dia é uma empresa educacional relativamente grande. Mas não temosdados para estimar em quantas cidades e escolas ela está, qual o orçamento anual e quanto se ganhacom isso.


Essa é uma empresa acelerada pela Fundação Leman?


Isso. A Fundação tem projetos que nascem lá dentro e, de repente, quando ele começa a ficar meio grande, cria-se um CNPJ separado e aquilo vira uma organização independente. E tem a dinâmica oposta: você identifica uma organização pequena, traz ela para dentro, compra um pedaço da ação dela e depois separa. Esse setor em que a Lemann se envolveu, de investimento de impacto, é muito pouco estudado e é um lugar, obviamente, de fazer dinheiro. A gente ainda não sabe direito, mas pode muito bem acontecer de você ter uma fundação que tenha ações em uma editora de livros, que agora está colocando material online e depois esses materiais vão ser cobrados. São dinâmicas muito opacas. Infelizmente, nós temos pouquíssimos mecanismos de controle no Brasil para conseguir rastrear.


Essas fundações geralmente têm uma visão de educação voltada para habilidades práticas e trabalhos, do mercado de trabalho, pensando em desenvolvimento econômico, pensando em um tipo de pessoa que depois vai ser útil para o mercado de trabalho. E essa perspectiva tem uma coisa bastante individualizante da habilidade, que é o aluno saber fazer a conta, mas também saber se portar, falar, empreender, ser criativo, mas não o criativo social, que questiona os problemas sociais, e sim o criativo da solução de mercado, que consegue abrir uma startup…E, dentro disso, a tecnologia cabe muito bem porque ela é vista como uma opção geralmente mais em conta. A gente pensa em ter um financiamento bem estruturado, mais robusto, políticas de formação e valorização profissional, para ter professores que vão fazer os projetos com as crianças e tal, mas, de repente, do outro lado se fala em um aplicativo que vai melhorar a aprendizagem das crianças porque elas vão ter joguinhos. E isso se torna uma solução mais barata, que vai bem com a visão individualista e de austeridade que essas entidades têm de educação. Internacionalmente, não só no Brasil, faz tempo que a filantropia como um todo tem gostado bastante de tecnologia. E aí a linha entre os fins lucrativos e não lucrativos fica cada vez mais borrada. Você vê filantrópicas que também têm seus investimentos… E, de quebra, você tem um abordagem mais individualista, mais focada em atividades, mais barata e que, por acaso, pode virar um mercado, pode ter os aplicativos que vendem, os computadores, os tablets… Aqui no Brasil a gente teve, por exemplo, o caso [do programa] ‘um computador por aluno’, que foi uma solução dos anos 2000 que acharam que iria revolucionar a educação. ‘Vamos dar um computador para cada criança’. Teve empresas que ganharam muito dinheiro vendendo computador. No fim, as crianças usavam os computadores como quem usa um caderno, os professores usavam as lousas e os computadores para fazer anotações e não revolucionou nada porque se a gente não pensa a pedagogia, um relacionamento com aplicação, realmente [a tecnologia] não cria muita coisa.


Boa parte dessas críticas são desenvolvidas há muito tempo, mas hoje, em meio à pandemia, a gente tem um problema concreto, um cenário diferente, que requer soluções emergenciais. Não é preciso pensar a necessidade de uso da tecnologia agora, seja para suprir a falta de aulas neste momento, seja para fazer a transição no pós-pandemia?


Eu concordo totalmente. Há alguns exemplos de organizações que têm um trabalho de pesquisar e coletar casos e exemplos de educação integral e inovadora. E a educação não é inovadora só porque tem tecnologia, mas justamente porque repensa a pedagogia, repensa o prédio, as salas… Um caminho é, por exemplo, nunca ficar passando o conteúdo da BNCC porque tem que correr com isso, porque vai ter prova, etc. Tem que pensar a tecnologia para ver exatamente como as crianças conseguem aprender agora, em casa, com os pais no dia-a-dia. É na cozinha? Será que a gente consegue passar alguma receita para que a família faça junto? Que tipo de conteúdo a gente pode trabalhar? Vamos falar da história da pandemia e passar alguns vídeos que são mais imersivos? Porque, afinal de contas, não adianta agora a gente ficar falando de história clássica do Egito. Está todo mundo em casa, sofrendo com a pandemia. Vamos passar coisas que nos ajudem a entender o momento aqui e agora. Uma cidade no interior de São Paulo fez isso: ‘chutou’ a Base e resolveu tentar trabalhar conteúdos relacionados com o agora, com a pandemia, com os problemas econômicos que estão vindo. Como a gente pensa os problemas de gestão da cidade? A tecnologia foi e está sendo usada para isso: o Whatsapp, para as próprias crianças terem contato com seus colegas, estão passando alguns vídeos, pedaços de documentários sobre os quais o professor faz algumas perguntas para refletir… Como você bem falou, a gente está diante de um problema novo para o qual não dá para fechar o olho. Não dá para a gente fingir e não fazer nada. O ponto não é esse. Mas existem alguns exemplos de como usar a tecnologia para aquela proposta mais aplicada, mais concreta.


As notas técnicas do Movimento Todos pela Educação, além de materiais de várias dessas entidades e documentos do Banco Mundial, por exemplo, afirmam que é preciso fazer um aproveitamento da tecnologia depois desse período de ensino remoto, aproveitando o que se aprendeu agora. Qual a centralidade da pauta da tecnologia como uma possível janela de oportunidades para a filantropia empresarial da educação neste momento? Quais as suas principais críticas a essa abordagem?


Acho que vale a pena fazer um contraste com aquilo que é a alternativa ao modelo empresarial, das fundações. Com uma perspectiva mais crítica [da educação], e que ficou muito marcada pelo Paulo Freire, temos uma visão mais coletiva, em que a gente acredita que o conhecimento é construído ativamente, na interação. A gente tenta também fazer essa construção de conhecimento com o local, com o território. Então, uma escola mais da periferia precisa discutir tópicos de saneamento da periferia e saber fazer um projeto aplicado, conseguir fazer os alunos escreverem um projeto que vá parar na prefeitura. Você está desenvolvendo outras habilidades sociais do coletivo.


Um outro ponto sobre o qual eu queria falar é que uma questão muito complicada no envolvimento do empresariado na educação é que geralmente não cabe todo mundo na política pública. Geralmente, quando alguém ganha proeminência, alguém está perdendo espaço. O que tem acontecido, nos últimos anos, é que essas organizações têm ganhado espaço e quem tem perdido são as organizações de educadores, os sindicatos, os fóruns estaduais e municipais. Antigamente, a gente via uma reportagem na Globo em que o especialista era o pesquisador, hoje em dia tem alguém de uma fundação. Uma coisa que a própria Campanha Nacional pelo Direito à Educação tem falado bastante é que só os professores nos municípios, as escolas e secretarias poderiam estar pensando em soluções que também usariam tecnologia, mas que fossem algo decidido e acordado entre os profissionais da área para poder dar essa resposta. E, lógico, também é preciso comentar que o próprio MEC está completamente ausente dessa discussão. E, nesse vácuo, as fundações têm entrado. Mas você vê o silenciamento dos profissionais da área. O que se faz pelo professor é dar o plano de aula pronto. A gente não consegue ver essas fundações apoiando os professores em uma criação, apoiando os professores para se associarem regionalmente e criarem essa solução. Então, a tecnologia em si, de fato, não é o nosso inimigo. É um erro a gente focar nessa discussão sobre se é a favor ou contra EaD. A questão é como essa via acontece. E um terceiro ponto é a questão do foco. Porque o foco deve ser manter as crianças bem, saudáveis, aprendendo, mantendo o ambiente familiar em casa saudável porque o medo grande, por exemplo, é a violência doméstica aumentar. Temos que levar tudo isso em conta nesse processo educacional remoto e não ter uma preocupação única com a prova, com cumprir a BNCC, com cumprir os objetivos de aprendizagem. Esse é um momento tão único, é uma chance de a gente repensar, dando significado às relações. Usar EaD só para ficar nessa coisa de sempre da escola, da prova, da nota, de bater meta é uma perda de oportunidade de a gente, de fato, atender às necessidades das crianças.


Mas no cerne do que você está argumentando está o debate sobre o que fazer com o ano letivo. Você fala sobre estarmos vivendo um momento único e o discurso predominante nesse campo crítico é que a educação deve servir à formação humana e não a uma formação para o mercado. Mas, na vida concreta das pessoas, sobretudo, das camadas mais pobres que estão nas redes públicas, o tempo também é um elemento importante. Adiar em um ano a saída da escola, sobretudo nas séries finais do ensino médio, pode ser um problema sério para algumas famílias. Os documentos das fundações empresariais dialogam com isso, inclusive quando não consideram a perda do ano letivo. Qual a sua avaliação sobre isso?


Sem dúvida, é uma necessidade real, concreta. Eu realmente acredito que a educação é esse lugar cheio de contradição: ao mesmo tempo em que é um bem público, é também privado, é uma coisa de formar sociedade, mas é também uma coisa de a pessoa se formar e eventualmente conseguir um emprego melhor. Ela é esse lugar para fazer a sociedade melhor, ter seu senso crítico. Não pode ser só pelo trabalho, mas também a parte técnica tem que sair de lá e a pessoa quer ter um trabalho legal. Eu acho que, infelizmente, essa possibilidade de perder o ano, perder um semestre, é uma tensão que está cortando todos os níveis. É uma das poucas coisas que está juntando desde a educação infantil até o ensino superior. Cada um tem sua especificidade, mas atinge desde o aluno que está na faculdade, iria se formar e tentar arrumar emprego, até as crianças que não estão sendo alfabetizadas. De fato, é um ponto seríssimo. Mas eu acho que, se é para repensar, tem que repensar sério. Porque só uma certificação pela certificação é muito vazia. A gente vai dizer que o aluno terminou o quinto ano, terminou o terceiro ano do ensino médio quando, na verdade, o aprendizado dele não aconteceu? Porque não está acontecendo. A gente tem um percentual enorme de alunos que não têm acesso ao computador. Mesmo para os que têm, as aulas não cobrem o conteúdo que dizem que estão cobrindo. Então, isso se torna uma preocupação burocrática e vazia. Eu acho que essa é uma discussão que tem que ser feita de uma maneira melhor, mas eu tendo a concordar com a vertente que diz que, primeiro, a gente vai ter que repensar localmente, com os profissionais da educação, e rever o calendário. A Campanha pelo Direito a Educação lançou vários guias contemplando questões como essa, inclusive o da volta às aulas, e os elementos a serem considerados. Está previsto pela LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação] que em momentos assim a gente pode unir anos letivos, por exemplo. Então, o ano letivo de 2020 vai começar talvez em janeiro do ano que vem e o ano que vem vai ser mais apertado. Vamos ter, por exemplo, três anos em dois. E aí a gente vai tirando o atraso. De fato, o aluno que iria se formar agora em dezembro, seja qual for a série dele, só vai se formar lá para agosto do ano que vem. E assim vai trabalhando para mitigar a perda. Eu acho que seria uma opção de você mitigar não só a perda do tempo, mas garantir o aprendizado, tentando ser mais honesta com os dois lados. E, junto com isso, também pensar em novas maneiras de certificação. Quando voltarem asaulas, a gente vai ter que fazer todo um trabalho de diagnóstico que vá além de prova. Só fazer prova não é suficiente, cada professor na sua sala de aula vai ter que identificar onde os alunos estão, quem aprendeu o que, pode ter um que se deu bem com o computador e vai ter outro que não. Vai ter que fazer aquele nivelamento, mas talvez haja modelos de você conseguir passar o aluno em uma matéria, principalmente no ensino médio. Será preciso repensar vários elementos e não se prender em modelos e burocracias antigas.


Uma nota técnica sobre o retorno às aulas do Movimento Todos pela Educação fala especificamente em “institucionalização de uma política de recuperação da aprendizagem”, de “introdução da tecnologia como aliada contínua” e sobre a necessidade de “avaliação diagnóstica, não só iniciais, mas como processo” para subsidiar depois essas políticas de recuperação de aprendizagem. É disso que você está falando também ou tem diferença?


Eu acho que há pontos de encontro. Por vezes é difícil a gente conseguir marcar as diferenças para o público geral, elucidar quais projetos estão na mesa, porque a gente soa parecido se não forem discutidas as ideias com maior profundidade. Eu acho que as diferenças vão aparecer bastante na implementação. O que a gente pode deixar marcado desde agora – e essa talvez seja uma certa diferença entre grupos críticos e empresariais – , é que não pode ser uma avaliação pró-forma e que não deve valer nota, que os educadores devem ser protagonistas nesse processo, e eles devem receber o devido apoio das secretarias, inclusive quanto ao financiamento. Essas medidas, da recuperação da aprendizagem, da avaliação diagnóstica, devem ter o devido apoio das secretarias, e não ficar como responsabilidade da escola com professores desamparados. É importante o professor ser, de fato, participativo no processo de decisão, porque depois a execução vai depender deles. Vão ser as diretoras, os pedagogos e os professores que vão conseguir determinar se uma avaliação está sendo feita pró-forma, só como um questionário que eles fizeram, ou se, de fato, aquela escola, com aquele corpo docente, está identificando as dificuldades e alterando conteúdo de acordo como que as crianças estão demonstrando. Vai ser na prática. Se esse tipo de avaliação tiver nota, as crianças ficam todas loucas, o professor começa a treinar para que as crianças não se saiam tão mal e o diagnóstico fica de lado porque o peso da nota já tirou o foco avaliativo. Seja lá quem for escrever isso, tem que tentar desenhar que essas provas não vão ter peso de notas, que o conteúdo daquele ano pode ser dado em um ano e meio, por exemplo, e que serão necessárias certas adaptações da política pública.


Uma solução que vinha sendo muito utilizada pelas redes no ensino remoto durante a pandemia é a plataforma Google Classroom. Existe alguma relação entre as entidades empresariais da educação e essas gigantes da tecnologia? Existe concorrência ou complementaridade entre esses segmentos?


Existem alguns movimentos internacionais. A Google, por exemplo, começou a ampliar a cobertura educacional, deixou os pacotes de graça. O próprio zoom, que era pago depois de 40 minutos de ligação, de repente passou a ser de graça, um monte de escola começou a usar o zoom. Algumas dessas superempresas tecnológicas têm entrado na educação. Isso não é tudo novo. A Microsoft fez isso naquela época do ‘um computador por aluno’, a Intel pegou um pouco disso também… É uma criação de mercado e tem também um tanto de marketing, de fidelização, a criança vê aquela marca desde sempre… O mercado da educação é muito polpudo, tem muito dinheiro, principalmente estatal. Quanto à relação entre, por exemplo, o Google e as fundações, eu acho que não tem competição. Eu acho que no Brasil essas fundações têm uma abordagem bastante cooperativa. Existe um trabalho demarcado: uma é mais voltada para o ensino médio, se é sobre competências socioemocionais é mais o Instituto Ayrton Senna, se é sobre desenvolvimento infantil, é outra… Eles não entram muito um no lugar do outro. E aí uma Google da vida, até onde eu tenho percebido, consegue de uma maneira muito rápida entrar nesse mercado, ver os atores que já estão ali naquele país e abordá-los, fazer parcerias que não entram em competição com esse mercado local. Acho que foi em 2015, 2016, que a Fundação Lemann com a [Revista] Nova escola, fez parceria com a Google para ter uma plataforma com planos de aula. Então, a Google, quando chega aqui, não chega sozinha, mas com uma fundação influente. Um fortalece o outro.


Num artigo publicado no site da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, você utiliza o conceito de “privatização por desastre” para apontar o perigo de um processo semelhante neste momento de pandemia. De fato, os documentos do Todos pela Educação, Banco Mundial e mesmo Unesco, fazem muita referência à experiência de países e regiões que já passaram por situações similares a atual para falar sobre os efeitos do afastamento das crianças e dos jovens da escola. O que se quer dizer com a ideia de privatização por desastre? E em que esse conceito ajuda a entender este momento?


Existe uma área, tanto de pesquisa quanto de prática, dentro da educação, que se chama Educação e Emergência. Ela trabalha com educação em contextos bem atípicos, de emergência. Às vezes são desastres naturais, como, por exemplo, no Haiti, quando tem um furacão e as escolas são derrubadas e outras usadas de abrigo. Mas nos últimos anos essa área com um todo tem se voltado bastante para a educação de refugiados. São populações que são deslocadas e países que recebem essas populações. Como você pode fazer? Que tipo de conteúdo você usa? Tem toda essa coisa do calendário, certificação… Tudo isso fica em xeque quando você tem crianças que vão chegando ao longo do ano, com outra língua, com uma situação vulnerável .É realmente uma área muito desafiadora e interessante porque os modelos tradicionais todos caem. E é uma área que sempre foi meio que patinho feio, lutava por investimento porque quase ninguém quer colocar dinheiro nisso, é um tema que consideram muito específico, são populações vulneráveis… De repente, essa área virou um foco de esperança para respostas. Eu acho ótimo, realmente eles têm coisas para ensinar. Mas um contexto desse pode envolver privatização por desastre ou não. O Haiti é um que teve: teve pesquisador, teve gente da Unesco, pessoas das nações unidas… O pessoal de educação emergencial ficou tentando ajudar e também empresas e startups, fundações chegaram junto para vender produtos. Então, as referências que eles comentam podem estar relacionadas ou não com contextos de privatização por desastre.


Sobre a privatização por desastre, quando você não tem um plano concreto, robusto, geralmente puxado pelo poder público, você cria um vácuo. E, geralmente, quem tem velocidade, poder e influência para ocupar esse vácuo são atores privados. É como eu falei: movimentos sociais e organizações civis, pela falta de capital mesmo e pelo tipo de estrutura organizacional, geralmente não vão conseguir ocupar isso da maneira rápida como as empresas e fundações privadas fazem. Quem ocupa esse vácuo tem uma chance enorme de ser uma organização privada. E a outra coisa é uma certa suspensão das regras e dos mecanismos de controle. Porque, num desastre, está todo mundo em choque, todo mundo em dúvida, está aquele clima de desespero como está agora. E aí, na falta de um plano, quem entra com um plano sai ganhando. O problema é que esse plano começa a rodar e você não consegue mais questionar no longo prazo. E se é um plano que previa a privatização, aí mais ainda: ele começa a andar e fica difícil reverter esse processo. Em contextos de desastre natural, pesquisas confirmam que a privatização que começa ali parece continuar mesmo depois de o desastre passar. E eu acho que agora tem o risco bastante grande de isso já estar acontecendo.

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