A bissexualidade de Marx: negatividade, dialética e as novas sínteses marxistas

Qualquer análise que se proponha marxista precisa, de partida, estar disposta a não descartar autores, conceitos, assuntos, obras e produções intelectuais apenas por não fazerem parte do cânone marxista ou por não usarem os escritos marxianos e marxistas como cartilha.

Por Marília Moschkovich*

Texto originalmente publicado no blog da Boitempo


Sinto desapontar os mais chegados em uma boa fofoca histórica, mas este não é um texto para mostrar que Marx era bissexual. Isso jamais saberemos com certeza, embora haja diversas teorias pouco confiáveis tanto buscando “demonstrar” que ele era certamente heterossexual, quanto conjecturar que sua relação com Engels teria uma dimensão afetiva e erótica que caberia em algumas noções de bissexualidade. O que desejo com estes parágrafos é abrir uma reflexão ampla sobre as novas sínteses marxistas que se abrem para questões de suma importância na vida da classe trabalhadora hoje – como é o caso das demandas e vivências da população LGBT.

Parto do caso da bissexualidade por três motivos. O primeiro é que a bissexualidade é um fenômeno que carece de reflexão aprofundada e sínteses filosóficas tanto nos estudos sobre sexualidade como um todo, quanto no movimento LGBT enquanto política, e também na teoria marxista. O segundo é que, como autora bissexual no mês de luta pela visibilidade bissexual, aproveito para trazer o assunto à tona enquanto procuro avançar nas ditas reflexões. O terceiro e último é que essa reflexão filosófica sobre a bissexualidade, proponho, é chave para a superação de um sistema intrinsecamente ligado ao Capital – o sistema de gênero, ou ainda, o Gênero (com letra maiúscula). Mas vamos por partes.

Escrevi recentemente um ensaio para a Revista Brasileira de Estudos da Homocultura (RBEH), destinado a uma seção temática especial sobre teoria crítica e política LGBT. O ensaio se chama, em sua primeira versão, “Notas para um materialismo histórico bi-alético” e propõe “um olhar bissexual” sobre a dialética hegeliana, a dialética negativa adorniana e o materialismo histórico. O texto, que deve ser publicado no fim deste ano, mobiliza esse instrumental com o objetivo de propor um primeiro esboço para uma teoria marxista da revolução no Gênero (marcado aqui em letra maiúscula quando me refiro ao nosso sistema de gênero, essa articulação de categorias relacionais em que se determina por meio do simbólico a distribuição desigual de poder em tudo que diz respeito à arena sexo-erótico-reprodutiva).

A discussão apresentada procura mediações numa homologia entre aquilo que sabemos sobre como opera o Capital e aquilo que sabemos sobre como opera o Gênero. Hegel, evidentemente, é o denominador comum. Primeiro pois são exímios leitores do filósofo tanto Marx quanto Butler, a autora responsável pela crítica mais detalhada e minuciosa do Gênero (tal qual Marx sobre o Capital), capaz de descrever o dispositivo normativo da matriz heterossexual (a obrigatoriedade de um contínuo entre classificação genital ao nascer, identidade de gênero e desejo/prática sexual orientada pelo gênero). Em segundo lugar, pela centralidade da dialética e da negatividade no próprio conceito de gênero, característica à qual atribuo também, até certo ponto, a agressividade de sua recusa dentro e fora do espaço de produção de pensamento e disputa feminista e LGBT. “Em terceiro lugar, porque o acúmulo teórico e político da comunidade bissexual como um todo nos direciona para a centralidade da negação nessa categoria de identidade (ou anti-identidade), em particular, talvez comparável à ideia de queer, embora esta última tenha sido disseminada e apropriada por meio de interpretações que por vezes se distanciam de seu caráter negativo.

Dando um passo atrás, é preciso recuperar o conceito de “matriz heterossexual”, para pontuar algumas reflexões sobre a bissexualidade. A matriz heterossexual é o dispositivo normativo, ideológico, que articula no universo simbólico a interpretação da realidade sobre os corpos e a arena reprodutiva e sexual. Trata-se do operador central do nosso sistema de gênero, que informa e orienta as relações sociais que ele atravessa. Na lógica desse dispositivo há uma continuidade obrigatória entre três dimensões: a classificação genital das pessoas, feita visualmente no momento do nascimento (a ideia de sexo biológico é um recurso, nesse sentido, que naturaliza essa classificação num efeito similar ao que Marx descreveu como fetichismo – uma categoria ideológica que esconde as relações sociais que produzem o fenômeno); a construção de identidade e expressão de gênero como um bloco, associado a cada classificação genital (aqui aparece a cisnormatividade desse sistema); e o desejo e prática sexuais, também entendidos como um bloco sem contradições e desencontros, sempre orientado de maneira heteronormativa.

Dito de um modo prático, a matriz heterossexual é o dispositivo normativo que diz que ao nascer uma pessoa é do sexo masculino ou do sexo feminino, e portanto deve construir uma identidade de gênero como homem ou como mulher, respectivamente, associando a essa identidade signos de uma expressão de gênero masculina ou feminina (também respectivamente), e que decorre disso o desejo e prática sexuais orientados ao “sexo oposto”. Esse útil conceito de Butler apoia uma compreensão complexa dos contornos simbólicos daquilo que hoje chamamos de “gênero”, e aponta para um sistema de normas de gênero e sexualidade baseados tanto num binarismo quanto numa mononormatividade: só são aceitas nessa norma duas categorias, sempre fixas (daí o construto ideológico da “natureza” ou da “biologia” como dispositivo central), sempre em oposição uma à outra, portanto, sem a possibilidade de comportar simultaneidades, fluidez ou contradição.

A bissexualidade engloba práticas concretas tomadas como inconciliáveis pela norma da matriz heterossexual. Cabe notar, antes, que como qualquer processo de construção de sujeitos políticos, a bissexualidade tem sido objeto de disputas dentro do próprio movimento bissexual e LGBT. Embora haja compreensões sobre essa categoria que, pouco mediadas e advindas de certo senso-comum, a classifiquem como binária (numa confusão entre etimologia e significado) ou procurem estabelecer normatividades diversas sobre ela (em busca de uma definição concreta, mensurável e impossível para demarcar o que uma pessoa deve fazer ou ter feito para poder ser reconhecida como bissexual), qualquer exame mais atento das experiências de pessoas bissexuais e dos próprios discursos da comunidade mostrarão que não passam de castelos de areia.

Além de se fundar em uma dualidade anti-binária – a bissexualidade não é a atração ou prática sexual com pessoas de dois gêneros ou do “meu gênero e do gênero oposto” ou “por homens e mulheres”, e nem mesmo a atração por “dois ou mais” gêneros, mas sim, a sexualidade que engloba o erotismo para com um e outros gêneros, ou seja, mais de um gênero simultaneamente. Além disso, a bissexualidade também rompe com a continuidade automática entre desejo e práticas sexuais, que é norma da matriz heterossexual, uma vez que sua compreensão depende da recusa em hierarquizar essas dimensões sexuais, afinal, a simultaneidade e coexistência das contrariedades requer sua persistência na dimensão simbólica independente da prática. É o que ocorre quando dizemos, por exemplo, que uma mulher bissexual casada monogamicamente com uma outra mulher não se torna lésbica e nem deixa de ser bissexual ao longo do casamento.

A proposição central da análise detalhada no referido ensaio no prelo é a de que a bissexualidade é um espaço de anti-identidade, dada pela simultaneidade necessária das contrariedades que contém. Dito de outro modo, se o Gênero em nosso regime simbólico (de base ocidental) opera por meio da matriz heterossexual e a mesma se estrutura como binariedade mononormativa, tanto as categorias “homossexual” quanto “heterossexual” se aproximam na sustentação desse mecanismo (uma como tese, a outra como antítese, mas nenhuma delas como negação) – ao passo em que a construção da bissexualidade acontece justamente na ruptura com esse princípio ou, melhor, a partir de sua negação.

Entre as características mais importantes da bissexualidade nesse argumento estão a simultaneidade (que constitui ruptura com a mononorma), e a multiplicidade (que constitui ruptura com a binariedade). Dessa forma, a bissexualidade aparece no ensaio como um espaço de potencial revolucionário do Gênero (sistema), no mesmo sentido em que no contexto da luta de classes, para Marx, aparece o proletariado – categoria cuja própria produção extrapola a possibilidade de absorção/acolhimento do próprio sistema que a produz, gerando tensão e acúmulo de tensão nas relações sociais de que participa.

A travesti, no debate trazido pelo ensaio, é a figura que materializa enquanto sujeito político essa negação para o Gênero, intersecionada com a condição proletária fundamental para sua construção de identidade e reconhecimento, e portanto potente sujeito revolucionário também em relação ao Capital – o que aponta inclusive para outras sínteses urgentes para analisar o capitalismo em nossa época, como uma compreensão efetiva e dialética do fenômeno do trabalho sexual, remunerado ou não (marital), do sistema de parentesco e de outros aspectos mais da vida sob esse devastador modo de produção.

Essas percepções vão ao encontro de algumas reflexões já discutidas aqui no Blog da Boitempo. Na minha coluna de janeiro, escrevi que

“as categorias negativas que tensionam e escapam à posição – como a bissexualidade, a transgeneridade, o não-binarismo de gênero, a impossibilidade de definir “mulher”, as práticas BDSM – foram e são grandes questões estruturantes do feminismo e do movimento LGBT em seus espaços revolucionários. Assim como a racialidade, as existências negras, os desejos marginais e, enfim, tudo aquilo que nega e foge à lógica, à continuidade da norma; o que se quer anti-norma; o que exige uma dialética que mobilize cada fibra e ossatura; dialética da boca para dentro. Embora essas tensões não tenham sido resolvidas em definitivo (claro) por esses movimentos, é notório que a disposição em observar e lidar com elas tem sido historicamente um motor de avanços na compreensão de como funciona o Gênero (sendo o conceito de gênero, inclusive, uma criação impulsionada por essa mesma força motriz). Essa é a dinâmica que tem faltado entre as práticas e análises da esquerda revolucionária de maneira geral.”
A grande tarefa do marxismo é o sexo”, Blog da Boitempo, 10 jan. 2020.

Observar a potência negativa de uma categoria como a bissexualidade, associada à construção da travesti como sujeito político, é um passo a mais em direção a essas sínteses. Não é surpresa que diante de sínteses tão novas – e necessárias, e desconhecidas ainda – ao marxismo, haja certo apego de alguns grupos ou indivíduos ao conhecido, às ferramentas de análise já bem estabelecidas e significativas para o campo marxista, ou mesmo a seus próprios valores morais enquanto militantes ou enquanto sujeitos. O discurso de deslegitimação dessas novas sínteses a partir de uma tentativa de reduzi-las a “ecletismo” é uma das ferramentas mais comuns para reafirmar essas inseguranças. A leitura anacrônica – e praticamente bíblica, ou seja, pouco dialética e muito sectária – de Marx ou de outros autores marxistas centrais como Lênin ou Kollontai (para ficar nos exemplos mais populares) é outra. Esquece-se quase propositalmente que o materialismo histórico é um método de análise, e que a análise da realidade e das relações sociais que compõem a materialidade dos fenômenos humanos só pode ser feita em diálogo crítico radical com os avanços e produções diversas de cada época.

Qualquer análise que se proponha marxista precisa, de partida, estar disposta a não descartar autores, conceitos, assuntos, obras e produções intelectuais apenas por não fazerem parte do cânone marxista ou por não usarem os escritos marxianos e marxistas como cartilha. Se recusamos, em prol de uma visão dialética, a lógica formal e seu positivismo como método de avançar o conhecimento sobre a realidade social (ou seja, se pretendemos adotar de fato o materialismo histórico como método), é obrigação sustentarmos também essa instigante recusa em relação ao nosso próprio entendimento do que são o marxismo e o materialismo histórico.

Infelizmente nem toda obra em diálogo com Marx, ou elaborada no contexto dos debates marxistas utiliza o materialismo histórico de maneira dialética – e esse problema já gerou socos e pontapés (simbólicos apenas, espero) entre diferentes autores e grupos de autores e militantes nos movimentos comunista e socialista ao longo dos últimos séculos. Em parte, porque isso implica conflitos bastante significativos em relação às próprias categorias e maneiras de abordar certos fenômenos que transpomos do campo da filosofia para a luta política – relevantes sobretudo quando pensamos em movimentos sociais (como o feminismo e o movimento LGBT) que em certo momento de sua história parecem ter passado a se contentar com políticas públicas como solução para os problemas que elegeram como bandeiras. É fato que há muitas mediações necessárias e nada simples nesse caminho.

Por fim, cabe dizer que não se trata, aqui, de aprofundar uma reflexão filosófica ainda inicial, mas de compreender a importância de sínteses desse tipo – que nos permitem utilizar as ferramentas elaboradas por Marx (o materialismo histórico) como base para analisar questões prementes e fundamentais de nossa época, mas que ainda não foram suficientemente reconhecidas como tais pelo espaço de produção intelectual do marxismo. Sobretudo, reitero, o caráter dialético de seu método, que nos permite estabelecer pontes e elaborar novas análises que apoiem construções revolucionárias – tanto em relação ao Capital, quanto em relação ao Gênero.


*Marília Moschkovich é socióloga, mestra e doutora em educação (na linha de pesquisa Educação e Ciências Sociais) pela Unicamp, tendo trabalhado também no Museu de Antropologia da Universidad Nacional de Córdoba (UNC), na Argentina, e na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris. Autora do posfácio à nova edição de A origem da família, da propriedade privada e do Estado (Boitempo, 2019), foi Research Fellow da Fundação Alexander von Humboldt em parceria com o festival de cinema Berlin Feminist Film Week entre 2018 e 2020, dedicando-se a pesquisa sobre não-monogamia, gênero e violência doméstica. Compartilha os resultados desse projeto em suas redes sociais e no podcast Libre, lançado no segundo semestre de 2019. Também é poeta (Gaveta, Urutau: 2017). Escreve e faz comentário político online desde 2010 (Blogueiras Feministas, Biscate Social Clube, Outras Palavras). No YouTube, Instagram, Twitter, Medium e outras redes sociais é @MariliaMoscou. Escreve mensalmente para o Blog da Boitempo.

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