A bicicleta, o trem, o Titanic e o mundo

Se a colisão com o iceberg é inevitável e iminente, se alguns efeitos dessa colisão são razoavelmente previsíveis, o que fazer? Sem fatalismos, é essa pergunta que devemos ser capazes de responder

Por Eduardo Sá Barreto*

Texto originalmente publicado no site Contrapoder


Qualquer pessoa que já tenha algum dia andado de bicicleta sabe que ela não anda apenas enquanto estamos pedalando. Se damos impulso suficiente, mesmo em um terreno plano, podemos eventualmente parar de pedalar e a bicicleta continuará seu curso por muitos metros antes que seja necessário dar novo impulso ou antes que ela pare por completo. Temos aqui um exemplo muito conhecido do princípio da inércia. Nesse caso, a mera suspensão da força que impele a bicicleta não é suficiente para fazê-la parar de imediato.


Um exemplo talvez não tão lembrado desse mesmo princípio, mas que aprendemos na escola, é o do trem. Ali nos é ensinado que, por ser um veículo de enorme massa, após o maquinista acionar os freios, o trem ainda percorre centenas de metros antes de parar completamente. Isso exige, naturalmente, que o maquinista acione os freios a uma distância ainda relativamente grande do local desejado de parada. Nesse caso, como vemos, o acionamento do freio não é suficiente para fazê-lo parar de imediato.


Um terceiro exemplo ao qual podemos recorrer, é o naufrágio do Titanic – mais especificamente sua representação cinematográfica. No filme de James Cameron, de 1997, a cena da colisão[1] entre o transatlântico e o iceberg nos proporciona vários elementos interessantes. Primeiro, o iceberg é visualizado a uma distância ainda considerável. Percebida a rota de colisão, dispara-se uma série de medidas com o objetivo de, por um lado, desviar o navio dessa rota e, por outro, reduzir rapidamente sua velocidade. Vemos que as máquinas que dão impulso ao Titanic são antes paralisadas para, então, terem seu movimento invertido, fundamentalmente buscando “dar ré” no navio. Na dramatização cinematográfica, vemos as máquinas voltando a operar a pleno vapor no sentido inverso, potencializando ao máximo essa força contrária à rota de colisão. Conforme sabemos, no entanto, toda essa aplicação de força contrária não foi suficiente nem mesmo para ganhar espaço para realizar o desvio de rota a tempo de evitar a colisão. Relacionando esse exemplo com os dois anteriores, poderíamos dizer que, nesse caso, nem mesmo a aplicação de uma força igual em sentido contrário é capaz de fazer o navio parar de imediato.


Notem, não gastei quase metade do espaço desta coluna com esses três exemplos porque despertei um interesse súbito por exercícios escolares da mecânica clássica. Recorro a essas três imagens bem conhecidas para ilustrar o grande tema do qual, de fato, costumo me ocupar: a crise climática. Elas me ajudam a discutir de maneira um pouco mais intuitiva a exequibilidade (ou não) das metas climáticas que vêm sendo veiculadas pela comunidade científica e por formuladores de política.


Por muitos anos – até 2015, na COP21, em Paris – a política climática internacional teve como objetivo norteador principal impedir que a elevação da temperatura média do planeta ultrapassasse 2oC acima do nível pré-industrial (i.e. acima da temperatura média estimada para meados do século XVIII). Entre 2015 e 2016, com a assinatura do Acordo de Paris, essa meta foi corrigida para 1,5oC como limite máximo tolerável de aquecimento.


Pensemos, por um instante, que o planeta é nosso Titanic e que 1,5oC é o iceberg contra o qual não podemos colidir. Logo de cara, a analogia nos dá uma indicação de que evitaremos o choque apenas “se pararmos as máquinas” e colocarmos toda nossa capacidade de impulso no sentido inverso. Falando em termos ainda mais coloquiais, precisaríamos não apenas tirar o pé do acelerador, mas também pisar com toda força no freio. O princípio que garante a adequação dessa analogia é o mesmo que vimos agora há pouco: o sistema climático é marcado por uma inércia extraordinária! As interferências desestabilizadoras que a humanidade tem provocado até aqui ainda se propagarão por séculos (ou até milênios).[2]


No entanto, esses traços mais gerais que colhemos nas analogias apresentadas não são suficientes para termos total clareza do quadro que se apresenta diante de nós. Precisamos ainda ter uma ideia de quão longe está nosso iceberg, os 1,5oC de aquecimento. Para fazer isso adequadamente, enfrentamos uma certa dificuldade, pois, como é possível notar, a meta de limitar o aquecimento a, no máximo, 1,5oC relaciona-se com o nível de temperatura supostamente pré-industrial. Mas a maior parte dos dados que temos à disposição tomam como base de referência temperaturas de períodos muito distintos. Mesmo assim, apesar de uma certa imprecisão provocada pela multiplicidade de períodos vinculados a ideia de “nível pré-industrial”, podemos usar as medidas disponíveis para ter ao menos uma intuição bem informada a respeito da distância do iceberg.


Segundo dados do Hadley Centre, que utiliza como base de referência uma média entre os anos 1961 e 1990, em 2016 (ano mais quente até hoje registrado, segundo a maioria das estimativas) atingimos 0,80oC de aquecimento.[3] Dados da NOAA, por sua vez, nos dizem que em 2016 (e 2020) o planeta esteve 0,99oC mais quente do que a temperatura média de todo o século XX.[4] Um relatório de 2018, do IPCC, nos diz que a década 2006-2015 foi 0,87oC mais quente que o período 1850-1900.[5] Por fim, a NASA coloca 2020 como o ano mais quente até hoje registrado, ficando 1,02oC acima da temperatura média entre 1951 e 1980. Mesmo em meio aos variados períodos usados como base de referência, é marcante o quanto todos eles estão distantes de qualquer coisa que possamos realmente considerar como pré-industrial. O período-base que mais se aproxima de meados do século XVIII é o utilizado pelo IPCC; e ainda assim a distância é, grosso modo, superior a 100 anos.


Isso cria, intencionalmente ou não, uma incorreta percepção de que o aquecimento superior a 1,5oC ainda é evitável. Por outro lado, o climatologista Paul Beckwith, por exemplo, vem insistindo que, caso considerássemos de fato as condições pré-industriais de temperatura, concluiríamos que já rompemos essa barreira de aquecimento. Mas para compreender adequadamente a gravidade de nossa situação, sequer é necessário recorrer a esse tipo de avaliação. Admitindo qualquer uma das medidas relatadas acima, já seríamos obrigados a admitir que, na melhor das hipóteses, o iceberg está a pouco metros de distância. E, como já foi dito, a tremenda inércia do sistema climático não nos autoriza a ter fantasias de que o aquecimento seria imediatamente interrompido assim que conseguíssemos controlar nossas emissões de gases de efeito estufa.


Aliás, a necessidade de controlarmos nossas emissões, que remete à ideia de descarbonização, acrescenta uma outra camada de inércia às nossas adversidades: nossas sociedades. A maneira como extraímos, transformamos e consumimos energia não é passível de ser transformada num piscar de olhos. Ela está vinculada a infraestruturas de extração, refino, transporte e distribuição que têm vida útil de muitas décadas e que, além disso, continuam sendo expandidas. Mesmo na hipótese irreal de um processo revolucionário global fulminante, a duração do processo de transição energética provavelmente seria contada em anos.


O resultado oferecido por esse raciocínio é simples e perturbador: vamos atingir o iceberg. E vamos atingi-lo com muita força. Neste momento, deveríamos estar pisando nos freios com toda a potência coletiva da humanidade. Mas, ao contrário, continuamos acelerando. E até nas metas mais ambiciosas que circulam hoje nos espaços de poder e negociação internacional, tiraríamos os pés do acelerador apenas na segunda metade do século XXI; para, sabe-se lá quando, só depois pisar nos freios.


Uma reação comum quando uma análise aponta que certos caminhos estão irremediavelmente bloqueados é denotá-la como fatalista ou catastrofista. Gostaria de pedir que as leitoras e os leitores resistissem, aqui, a essa tentação. Não estou afirmando que não há nada mais a ser feito, ou que tanto faz, ou que a luta deve ser abandonada. Estou apenas afirmando que o rol de futuros ainda possíveis está se estreitando. Nele, não figura mais o futuro em que o aquecimento de 1,5oC é evitado. Com isso, nossas dificuldades aumentam e o que é exigido de nós aumenta. Não o contrário. Se a colisão com o iceberg é inevitável e iminente, se alguns efeitos dessa colisão são razoavelmente previsíveis, o que fazer? Sem fatalismos, é essa pergunta que devemos ser capazes de responder.



*Eduardo Sá Barreto é Professor de Economia, pesquisador do NIEP-Marx e autor do livro "O capital na estufa: para a crítica da economia das mudanças climáticas"



Referências

[1] Confira aqui, por exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=ep_9pW-Nyug


[2] IPCC. (2018). Global warming of 1.5 C: An IPCC special report on the impacts of global warming of 1.5 °C above pre-industrial levels. Genebra: IPCC.


[3] Cf.: https://ourworldindata.org/search?q=temperature.


[4] National Oceanic and Atmospheric Administration. Cf.: https://www.ncdc.noaa.gov/cag/global/time-series/globe/land_ocean/ann/12/1880-2021


[5] IPCC. (2018). Global warming of 1.5 C: An IPCC special report on the impacts of global warming of 1.5 °C above pre-industrial levels. Genebra: IPCC.

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