A Amazon é um símbolo do desperdício capitalista

Um novo relatório revelou que só um depósito da Amazon na Escócia destrói 130 mil produtos não vendidos por semana – um lembrete de como funciona o desperdício envolvido na produção capitalista voltada para o lucro, em vez da necessidade pública

Por Paris Marx*

Texto originalmente publicado no site Jacobin Brasil


Este ano, o “Prime Day” da Amazon, evento de vendas criado em 2015, caiu nos dias 21 e 22 de junho. Enquanto muitas agências de notícias municiavam o monopólio da mídia para que seus leitores soubessem sobre os grandes descontos que poderiam conseguir – em alguns casos, utilizando links afiliados – a ITV News publicou uma história que faria as pessoas pensarem duas vezes antes de ceder ao seu impulso consumidor.


Na investigação da ITV News, o correspondente Richard Pallot descobriu que o centro de atendimento da Amazon em Dunfermline, na costa leste da Escócia, estava destruindo milhões de itens encalhados todos os anos. Muitos deles nunca haviam sido retirados de suas embalagens.


Um trabalhador anônimo da Amazon disse a Pallot: “De sexta a sexta, nossa meta em geral era destruir 130.000 itens por semana”. Um documento vazado sobre uma única semana mostrou 124.000 itens marcados para destruição, mas apenas 28.000 marcados para doação, enquanto um gerente disse a Pallot que, em algumas semanas, mais de 200.000 itens seriam destruídos.


De acordo com o trabalhador anônimo, cerca de metade dos itens descartados eram de devoluções que costumavam estar em boas condições, enquanto a outra metade eram produtos novos – e não apenas lixo de plástico barato. “Não há rima ou razão para o que é destruído”, disse o trabalhador. “Ventiladores Dyson, aspiradores de pó, Macbooks e Ipads; outro dia, 20.000 máscaras (faciais) de Covid-19 ainda em seus invólucros.” Embora parte desse produto vá para centros de reciclagem, grande parte acaba em aterros sanitários.


A escala de desperdício revelada pela investigação da ITV não é exclusiva dos centros de abastecimento britânicos da Amazon; nem, na verdade, a Amazon é a única culpada. O relatório ilustra ainda mais a desconexão entre a imagem que a empresa tenta vender ao mundo e como ela realmente opera, mas também vai mais fundo do que isso para mostrar a ineficiência do cerne de nossa economia de consumo.


A escala da destruição da Amazon


O armazém de Durfermline é apenas um dos 24 centros de atendimento da Amazon no Reino Unido. Ao redor do mundo, a Amazon atualmente opera mais de 175 armazéns e está no processo de construção de muitos, à medida que busca capitalizar sobre o aumento de gastos capturado durante a pandemia. É impossível dizer exatamente quanto estoque está sendo jogado no lixo em todos os outros depósitos, mas sabemos que isso está acontecendo. A ITV não é a primeira organização de mídia a perceber isso.


Em 2019, a rede francesa RTL lançou um documentário sobre o desperdício da Amazon, depois que uma investigação descobriu que a empresa destruiu mais de três milhões de produtos na França em 2018, incluindo 293.000 produtos ao longo de nove meses em um de seus menores centros de distribuição, localizado em Chalon-sur-Saône. Os produtos incluíam livros, pacotes de fraldas Papmpers, conjuntos caros de Lego e até televisões LG fechadas.


Ecoando a investigação da ITV, a RTL descobriu que parte da explicação para todo esse desperdício era o aumento dos custos de armazenamento que a Amazon cobra de terceiros para guardar seus itens em depósitos da Amazon. Vendedores são incentivados a aproveitar essa opção porque oferece uma melhor chance de exposição na plataforma, mas o documentário descobriu que o custo de um metro de espaço em um depósito da Amazon disparou, e os vendedores são incentivados a jogar fora suas mercadorias se não as venderem. Quando um vendedor ia retirar seus produtos, o custo de devolução de um item era £17, em comparação com £13 para a destruição.


Embora tenha recebido menos atenção da imprensa inglesa do que o relatório da ITV, a emissora pública alemã Das Erste também publicou uma investigação do Greenpeace para coincidir com o Prime Day deste ano, que encontrou uma quantidade significativa de estoque destruído vindo de um centro de distribuição em Winsen. O relatório ecoou o custo para vendedores terceirizados, mas também mostrou que os trabalhadores da Amazon foram instruídos a remover produtos perfeitamente bons de sua embalagens e até mesmo danificar intencionalmente alguns itens para poderem ser descartados de acordo com as leis de economia alemã. É uma medida preventiva, uma vez que essas regulações ainda não estão em vigor.


Nos Estados Unidos, a Amazon vende produtos usados, devolvidos, danificados em depósitos e até mesmo alguns novos na seção de ofertas em seu site. Ela também vende paletes de devoluções sob a Amazon Liquidations. Mas não se sabe quanto do estoque acaba sendo revendido e quanto é descartado, nem quanto os compradores realmente retêm dos lotes que adquirem a preços baixos.


As externalidades da obsessão do consumidor


O que essas revelações nos dizem sobre a Amazon em si? A Amazon afirma ser otimizada para o consumidor. É certo que isso é mais uma propaganda corporativa do que uma declaração de fato, pois, ao aumentar as taxas dos vendedores, a Amazon está na verdade tornando os produtos mais caros, ao mesmo tempo que captura mais lucro para si mesma. É mais correto dizer que a Amazon é focada no cliente, contanto que esse foco esteja alinhado com seus objetivos mais amplos de maximização de receita e expansão corporativa.


Mas, mesmo que acreditássemos na palavra da Amazon, a quantidade de resíduos bombeada para fora de seus centros de distribuição demonstra que há ainda mais externalidades na otimização para a conveniência do consumidor do que percebemos anteriormente.


Já está bem documentado como a obsessão da Amazon cria um ambiente opressor e perigoso para seus funcionários de depósitos e entrega. A rotatividade nos centros de distribuição está fora das paradas, as taxas de acidentes nos Estados Unidos são o dobro da média da indústria, os trabalhadores são constantemente monitorados e podem ser facilmente demitidos por perderem suas cotas, e até têm dificuldade de usar o banheiro enquanto estão trabalhando nos seus turnos.


Além dos danos aos trabalhadores, o tributo ambiental dos negócios da Amazon é enorme e está em constante crescimento. A Amazon fez um grande acordo nos últimos anos, prometendo atingir zero emissão de carbono até 2040, e seu investimento de US$ 2 bilhões para desenvolver “produtos, serviços e tecnologias para proteger o planeta”. No entanto, a empresa também demitiu ilegalmente dois funcionários que a pressionavam a adotar políticas climáticas mais agressivas durante a pandemia, e ignorou seus compromissos ambientais anteriores ao expandir parcerias com empresas de petróleo e gás.


Agora temos evidências crescentes de que a Amazon também está enchendo aterros com produtos perfeitamente bons e, para piorar, muitos desses produtos são eletrônicos. Lixo eletrônico pode ser particularmente difícil de ser reciclado e, se parar em aterros sanitários, pode liberar produtos químicos prejudiciais. Já era ruim o suficiente descartar máscaras e fraldas que poderiam ser usadas.


Embora seja importante investigar o papel da Amazon neste problema, é muito maior do que apenas uma empresa. Na realidade, as revelações demonstram um problema estrutural com o consumo em massa, central para nosso sistema econômico.


A economia do consumidor está quebrada


Somos frequentemente informados de que o sistema capitalista de mercado livre é a maneira mais eficiente de organizar uma economia. Ainda sim, construídas em cadeias de abastecimento rápido que alimentam a economia de consumo global estão montanhas de alimentos e bens de consumo desperdiçados que poderiam ir para as pessoas que precisam deles – ou talvez eles nem deveriam ser produzidos.


Além da Amazon, a Tesco (rede varejista britânica de mercados) já havia sido criticada por seu problema com o desperdício de alimentos, que tomou medidas para reduzi-lo nos anos seguintes. A Target (varejista norte-americana) foi multada na Califórnia por descartar ilegalmente lixo eletrônico tóxico por anos. Empresas como Cartier e Nike admitiram destruir seu estoque não vendido para que aqueles que vendem mantenham seu valor, enquanto empresas de moda destroem milhões de mercadorias não vendidas todos os anos. E isso é apenas a ponta do iceberg.


Varejistas e restaurantes jogam imensas quantidades de produtos no mercado todos os anos, e sua existência tem como premissa uma cultura mais ampla do descartável. Somos condicionados a substituir coisas constantemente. Da mesma forma que a Amazon criou um ambiente em que o descarte é uma forma normal de fazer negócios, construímos uma economia em que faz sentido para os negócios superproduzir ou administrar mal a produção, de forma que milhões de produtos sejam desnecessariamente descartados todos os anos.


O modelo da Amazon de envio de grandes quantidades de mercadoria em pequenos pacotes, que chegam na porta do consumidor em alguns dias, se não em algumas horas, não é sustentável e provavelmente nunca será. Mas é o resultado de um esforço de décadas para empurrar preços baixos acima de tudo, e ver os trabalhadores e o meio ambiente como uma questão colateral nessa busca.


Mudar esses princípios fundamentais de nosso sistema econômico exigirá mais do que alterar nossos padrões de consumo pessoal ou criar impostos para tentar moldar ações corporativas. É preciso uma reflexão muito mais profunda de como nossa economia funciona e a quem ela foi projetada para servir: se a Amazon é a representação da economia capitalista moderna, nós deveríamos estar questionando como seria seu equivalente em uma alternativa socialista e sustentável.



*Paris Marx é escritor socialista e urbanista. Edita o Radical Urbanist e já escreveu para a NBC News, CBC News e Toronto Star.


Tradução: Sofia Schurig.


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